quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Breve relato de uma caminhada histórica

Realmente faz um bom tempo que não escrevo a vocês. Mas isso não significa que deixei de escrever. Continuo lendo alguns livros e atualmente alguns estudos sobre a historia da igreja nesses dois últimos séculos. Isso tem me ajudado a montar algumas peças de um quebra cabeças, o qual acredito não ser possível termina-lo até o final da minha vida, pois algumas coisas só nos serão reveladas na vida após a morte quando receberemos a plenitude do Espírito. 

Hoje eu entendo que foi de grande valia ter nascido, criado e ensinado de acordo com os padrões evangélicos e protestantes da igreja histórica no Brasil. Tive o privilégio de viver até o final de minha adolescência (nas décadas de 70 e 80) dentro do contexto da igreja tradicional e histórica. Isso também me deu a oportunidade de ver de perto a chegada do movimento neo pentecostal (originário do pentecostalismo) que rapidamente passou a ganhar seu espaço entre os crentes, conquistando assim novos convertidos e atualmente sendo o maior seguimento evangélico do Brasil. 

Passei por poucas igrejas. Fiquei na metodista ate meus dezoito anos de idade, ocasionalmente fui parar na Renascer pelo fado deles absorverem a nossa reunião de surfe chamada Bola de Neve, e antes mesmo que o próprio Bola de Neve se tornasse uma igreja local, desgostoso com os grandes desvios hermenêuticos, fui parar na Cristo Salva, uma igreja muito boa que contribuiu bastante para o meu crescimento.

Estabelecer uma comunidade local equilibrada não é um desafio novo. Desde que esse mais novo seguimento evangélico ganhou forca, sempre ouvi dizer que o mais próximo do ideal seria conciliar a organização, o zelo pela Palavra dentre muitos outros valores das igrejas tradicionais com o “avivamento” neo pentecostal.

Pois há um tempo ando triste com o que tenho visto. Triste com o rumo que nós, evangélicos, temos tomado como igreja. Afinal há muito tempo tenho percebido o desprezo pelos princípios bíblicos. O pior é saber que a historia se repete, e que pela falta de pesquisa, meditação na Palavra e confrontação bíblica, o critério quase que inexiste.

Farei um breve relado do que tenho percebido ao longo desses anos. Hoje em dia existe uma grande desvalorização do ensino bíblico. Este deu lugar a experiência pessoal. Tratam a bíblia como um livro de histórias e experiências religiosas, que começa com Israel no Velho Testamento, e que termina com a humanidade, nos dias atuais. Dá-se mais valor as experiências sentimentais e emocionais, do que a transformação do caráter de cada individuo. Há um grande desprezo pela revelação pronta a mão, a bíblia, pois esta deu lugar aos novos líderes profetas. Também é comum a grande multiplicação de títulos como bispos e apóstolos. Ocorreu também a verticalização da estrutura hierárquica da igreja, os lideres fortes se colocaram no topo da pirâmide – teve um tempo em que o relacionamento dentro da igreja local era horizontal. Consequentemente trouxeram de volta o messianismo e o clericalismo, pois esses lideres de grandes ministérios são incontestáveis; e sua palavra é a palavra de Deus; e se alguém se opuser a isso cai em maldição por cometer o pecado da rebeldia contra um ungido de Deus. Eles tomam decisões sozinhos de questões financeiras e doutrinarias sem nada prestar contas, nem mesmo de sua vida pessoal – a ninguém. Não existe investimento missionário, mas sim uma grande luta por entrar nos meios de comunicação – custe o que custar. Como isso representa um investimento de altíssimo valor financeiro, passaram a valorizar ainda mais a tão conhecida – pouco entendida entre a maioria – teologia da prosperidade que valoriza o status terreno mais do que a vida na eternidade, onde, segundo Jesus, é que se encontram os tesouros incorruptíveis. Nessa nova onda Deus se tornou escravo de suas próprias promessas e por esse motivo, se fizermos a nossa parte, ele será obrigado a me recompensar. Por isso palavras como eu reivindico e determino, viraram comuns em nosso meio. Assuntos como dízimos, ofertas, votos, desafios de fé, campanhas de prosperidade financeira e libertação, passaram a ser mais importantes, muito mais do que salvação em Jesus Cristo e a justificação pela fé. Os prédios, cada vez mais suntuosos, são chamados de templos e casa de Deus. Figuras e objetos usados pelo povo de Israel no Antigo Testamento se tornaram amuletos de sorte – objetos ungidos como lenços, rosas, cálices, sal grosso, cajados, anéis, broches, etc. Santificaram o que é profano e profanaram o que é santo. Investe-se mais ai do que em famílias. Causas sociais como a pobreza, saúde e educação também deixaram de ser importantes para a igreja. Percebi também que os idosos não têm vez, pois a maioria dos lideres são entre vinte e trinta anos de idade. “Da graça decaíram” para dar lugar a justificação pelas obras ou desempenho de sucesso. 

Enfim, a lista poderia ser maior ainda. Mas é melhor parar por aqui.
Como escreveu Philip Yancey, “graça significa que não há nada que possamos fazer de para Deus nos amar mais – nenhuma quantidade de renuncia, nenhuma quantidade de sofrimento recebido em seminários e faculdades teológicas, nenhuma quantidade de cruzadas em beneficio de causas justas, nenhuma quantia de dízimos, ofertas ou coisa do gênero. E a graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos – nenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus já nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar.”

Porém esses novos lideres diriam que concordam com essa definição, mas também diriam que essa graça se aplica somente a salvação do individuo, e no que diz respeito as bênçãos, e necessário que façamos a nossa parte para recebermos de Deus o bem merecido. 

É justamente por esses motivos que tenho dito que não darei continuidade a esse sistema que vigora. Confesso que estive bem próximo e me senti muito atraído a tudo isso, porém ao mesmo tempo me sentia um traidor de minha própria consciência e da própria Palavra. Decidi viver como um marginal para o sistema. Penso bastante em como será a próxima geração. Não somente meus filhos, mas os filhos dos meus filhos. Não darei continuidade a isso. Não serei um administrador desse sistema. 

Como escreveu Jürgen Moltmann em seu livro Teologia da Esperança: 
“Deus elevou o homem e lhe concedeu perspectiva de liberdade e amplidão, mas o homem fica para trás e renuncia. Deus promete uma nova criação de todas as coisas em justiça e paz, mas o homem faz e age como se tudo permanecesse no velho e antigo. Deus o faz digno de suas promessas, mas o homem não confia naquilo que lhe e proposto. Esse é o pecado que mais ameaça o crente – não o mal que ele faz, mas o bem que deixa de fazer; acusam-no não as suas más ações, mas as suas omissões. Acusam-no de falta de esperança; pois os assim chamados pecados de omissão se fundamentam todos na desesperança e na pouca fé.”


Esse assunto é bem longo, mas por enquanto isso basta.

Valeu

Paulo David Muzel Jr – Tropical
muzel.jr@uol.com.br
(11) 76848135

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