Ensina-se geralmente nas igrejas que cristãos devem dizimar (uma palavra que significa dar “um décimo” de sua renda) na sua igreja local. Os cristãos são ensinados que eles devem os primeiros dez por cento de sua renda à igreja onde frequentam, e que qualquer doação a pessoas ou ministérios necessitados deve entrar em uma categoria separada chamada de “ofertas” e devem ser dados somente depois que o primeiro décimo foi dado à igreja. Os pregadores falam como se a Bíblia realmente ensinasse tal coisa, embora o a Bíblia em nenhuma parte mencione o que nós hoje chamamos de “igreja local,” e o Novo Testamento nunca aplica nenhum dever de dizimar aos Cristãos.
O Dízimo foi ordenado aos filhos de Israel para o sustento dos Levitas (Num.18: 21). Dessa forma, os Levitas, que eram consagrados ao ministério por tempo integral e não podiam receber lucros empregatícios, poderiam desfrutar de um padrão de vida que fosse aproximado ou ligeiramente mais elevado do que a média nacional de Israel. Os Levitas, por sua vez, contribuíam com um décimo de sua renda aos sacerdotes para o sustento dos mesmos (Num.18: 26-28). O sistema foi projetado para liberar um grande número de homens para ministrar nas coisas do tabernáculo/templo e ensinar a lei aos povos. A fração “um décimo” não era arbitrária, mas correspondia às necessidades do número de ministros de tempo integral que precisavam de sustento.
Desde quando Deus aboliu o templo e sacerdócio Levítico, não permanece mais nenhuma razão óbvia para que o dízimo deva continuar a definir a medida de como um Cristão deva dar a Deus. A igreja geralmente não libera um ministro em tempo integral para cada dez famílias (embora esta relação não seria excessiva), assim não há nenhuma razão bíblica ou lógica para que a mesma porcentagem da renda do cristão deve ser destinada aos cofres da igreja como foi requerido dos Israelitas em sua sustentação do clero do templo. Essa é, sem dúvida, a razão pela qual nem Jesus nem os apóstolos nem sequer sugeriram esse dever aos seus discípulos. O Dizimo era para a sustentação do sistema ritual de Israel. Estes aspectos cerimoniais da lei foram eliminados com a chegada de uma aliança melhor. Às vezes argumenta-se que o Dizimo “não acabou junto com a Lei” pela simples razão de que o Dizimo foi praticado antes do advento da Lei Judaica, e tem, consequentemente, uma legitimidade própria independente da lei. A evidência total de que o Dizimo foi praticado antes da época de Moisés consiste em duas passagens em Gênesis. Em Gênesis 14:20, Abraão deu um décimo das sobras de sua recente conquista contra o Rei Quedorlaomer para o sacerdote Melquisedeque. Também, em Gênesis 28:20 - 22, Jacó, acordando de seu sonho famoso, fez votos para dar a Deus um décimo de toda a prosperidade que Deus desse a ele durante a sua ausência de Canaã. Estas passagens ensinam ou sugerem que indivíduos tementes a Deus devam devotar regularmente dez por cento de sua riqueza a Deus? Dois episódios isolados não podem estabelecer tal padrão, sendo que não temos registro de Abel, de Enoch, de Noé, de Isaque, de Judá ou de José observando tal prática. Tampouco temos o registro de que Abraão ou Jacó tenham feito isso em outras ocasiões, exceto nesses dois casos. Nós não temos nenhuma razão para acreditar que Abraão dizimava regularmente. Consequentemente, ninguém pode estabelecer a partir das Escrituras que o Dizimo era uma prática reconhecida ou exigida antes da época de Moisés. Além disso, mesmo se nós tivermos uma base bíblica para tal ensino, não seria coerente afirmar que o dizimo continua como um dever dentro da Nova Aliança. Lembre-se, circuncisão e sacrifícios animais (ambos comandados na lei de Moisés) eram definitivamente práticas regulares antes da Lei Mosaica, mas isso não fornece um argumento concreto para a continuação dessas práticas após a época de Cristo.
O Dízimo é mencionado no Novo Testamento tem três conexões. Hebreus 7 simplesmente relata a história de Abraão e de Melquisedequi, sem nenhuma referência a qualquer transferência ou extensão desse dever aos Cristãos novos. Os Evangelhos relatam Cristo dizendo que os escribas e Fariseus pagavam seus dízimos meticulosamente, enquanto negligenciavam “as questões mais importantes da lei” (Mateus.23: 23/ Lucas 11:42). Jesus diz que eles deveriam fazer ambos (isto é, dizimar e observar as questões mais importantes), mas isso indica somente o que era exigido dos Fariseus como homens Judeus que viviam sob a lei do Velho Testamento, e não nos diz nada sobre algum dever transferido para discípulos Cristãos. Finalmente, nós temos a “oração de auto-felicitação” de um Fariseu em uma parábola (Lucas 18:12), que se gaba de pagar dízimos de tudo que possui, mas a parábola em momento algum indica que esse homem deva ser um modelo para que os Cristãos o imitem.
Não é de se surpreender que defensores do dízimo não façam muito uso destes versículos do Novo Testamento. As pregações geralmente dão enfoque à admoestação do Velho Testamento contra aqueles que não estavam trazendo os dízimo para a casa do tesouro (Malaquias 3: 10). O argumento é sempre mais ou menos assim: “A casa do tesouro é o lugar aonde você vai para receber o seu alimento. Espiritualmente, você recebe o seu alimento na sua igreja local. Consequentemente, Deus te ordena a dar dez por cento de sua renda à igreja onde você é membro. Qualquer coisa que exceda esse montante não é dízimo e sim oferta.”
Pode-se facilmente especular a respeito da motivação que as igrejas tem para ensinar dessa forma. O único erro com a linha de ensino exposta no parágrafo anterior é que não há um só ponto bíblico legítimo contido nele. Primeiramente, a “casa do tesouro” não era o lugar aonde os Judeus iam para receber seu alimento. A “casa do tesouro” se refere aos salões de armazenamento dentro do templo judaico (Ne 10: 38) onde o alimento era armazenado exclusivamente para os sacerdotes. Eram somente os sacerdotes que comiam lá, e todo o excesso era dado aos pobres (Deut 26: 12), e não existia o conceito de uma “dispensa particular” de onde o dizimista pudesse retirar o seu próprio sustento. Adicionalmente, não é uma premissa absoluta que cada cristão receba sua principal alimentação espiritual à partir da sua igreja local. É a negligência dessa alimentação pelas igrejas locais que tem contribuído para a proliferação de ministérios paraeclesiásticos para compensar essa deficiência. Finalmente, nada nessa passagem é dirigido aos crentes do Novo Testamento. Os padrões de contribuição para o Cristão são definidos em termos inteiramente diferentes.
Esses termos são encontrados no ensinamento de Cristo, que todo aquele que deseja seguir a Cristo deve rejeitar “tudo o que tem” (Lucas 14:33/ cf. Mat13: 44-46). A lei cerimonial serviu apenas como uma tipologia profética da revelação de Cristo. Essa revelação ensina que todo o povo de Deus, “tendo sido comprado por um preço,” não mais pertence a si mesmo, mas são propriedade integral e absoluta de Jesus Cristo (1 Cor 6: 19-20). Todo o tempo e todas as possessões do Cristão pertencem a Deus - um fato demonstrado pela lei cerimonial através da exigência de se dar a Deus um símbolo representativo do nosso tempo e possessões (um dia da sua semana, e um décimo das suas possessões).
Ao invés do dízimo, o NT ensina a “mordomia” (Lucas 12:42; 16:1ff; 19:12-13/ Mat 25:14/ Tito 1:7). O cristão é um “mordomo”, ou “gerente,” das possessões de outrem (de Deus). Ele NÃO está numa parceria ou sociedade com Deus, onde Deus detêm 10% das ações e o Cristão detêm 90%. Quando ele vem para Cristo, o pecador arrependido entrega TUDO o que ele tem para Deus e não reivindica a posse de nada (Atos 4:32). Desde o momento de sua conversão, o crente torna-se responsável pelo gerenciamento de todos os seus recursos (monetários ou de outra natureza) visando os interesses e os ganhos do seu Mestre. Aqueles que procuram reservar uma parte de suas vidas para si mesmos não necessitam se candidatar! (Lucas 9:23).
Qual, então, é a responsabilidade do mordomo?
Ele deve conduzir seus recursos exatamente da mesma maneira que seu mestre o faria se estivesse em seu lugar. Como Deus gastaria/investiria o seu dinheiro? Bem, as Escrituras nos dão toda a orientação que nós necessitamos nesta matéria. Em Sua Palavra, Deus expressa sua preocupação com os pobres e com o sustento daqueles que ministram a Palavra de Deus. Um presente oportuno aos pobres é um presente ao próprio Deus (Prov19: 17/Mat 25: 37-40), e é o método prescrito de depositar tesouros no céu (Marcos 10:21 /Lucas 12:33). Dar ao necessitado é uma mera expressão do mandato para amarmos ao próximo assim como amamos a nós mesmos (Lucas 10:27 - 37).
O sustento dos ministros do reino é similarmente uma expressão de nosso dever para amar Deus, procurar primeiramente o reino de Deus (Mat 6: 33). Estes ministros incluem aqueles que ensinam a Palavra de Deus (como os Levitas - Gal 6: 6/1 Cor 9: 11/1 Tim 5: 17-18). Isto incluiria o pastor da sua igreja local (se ele de fato ensinar a Palavra de Deus) e outros dos quais se recebe direção e sustento espiritual. Também incluiria ministros itinerantes e missionários (Lucas 8:2 - 3/ Fil.4: 16-18/3 Jo 5-8). Há tamanha variedade de ministérios – alguns mais e outros menos necessitados, e alguns mais ou menos dignos de receberem sustendo – que o mordomo responsável fará um bocado de pesquisa antes de comprometer os fundos do Mestre a uma determinado pedido de auxílio financeiro. No final das contas, o exercício da mordomia responsável exigirá bastante oração e busca da direção do Espírito Santo. É algo bem mais sério e trabalhoso do que simplesmente assinar um cheque para a assembléia local (que pode estar considerando a substituição do carpete do santuário pela terceira vez nessa década) repassando um décimo do seu salário.
Nós devemos também reconhecer que Deus também providenciaria as necessidades de seus servos e suas famílias. Consequentemente, uma determinada quantidade de nossa renda deve ser devotada à alimentação, moradia e a vestimenta de nossas famílias (1 Tim.5: 8). Também não há proibição de alguma medida de investimento no nosso próprio lazer (1 Tim.6: 17). Quanto deve ser investido em tais coisas? Isso está entre o mordomo e seu mestre, e não é para que outro julgue (Rom.14: 4). Entretanto, nós devemos estar vigilantes quanto a nossa própria tendência pecaminosa de julgar nossas próprias ações (e gastos) de maneira mais favorável do que os fatos evidenciariam. Na eternidade, nosso regozijar será proporcional a nossa abnegação pessoal nessa vida e à nossa generosidade aos pobres e ao trabalho de Deus.
No século seguinte à era apostólica, os Cristãos entendiam que o dízimo havia sido substituído pela Rendição completa a Deus. Em sua obra Contra Heresias, Irineus escreveu:
“[Os santos do Antigo Testamento] ofereceram seus dízimos; mas aqueles que receberam a liberdade separam tudo o que eles possuem para o uso do Senhor, entregando de forma alegre e livre, não como coisas pequenas em busca de coisas maiores, mas como aquela pobre viúva, que depositou todas as suas energias no tesouro de Deus.”
O Didache (início do segundo século) tem nas Escrituras um aliado quando ele aconselha, “Não exite em dar, e não dê com má graça; pois você descobrirá quem é Ele que te pagará em retorno... Não vire as costas ao necessitado, mas compartilhe tudo com o seu irmão e não considere nada com sendo seu bem pessoal.”
Amen
Amen
Por Steve Gregg (http://www.thenarrowpath.com/)

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