quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Não pedi para correr


Não pedi para correr. 
Não pedi para começar a correr, mas fui naturalmente forçado. Comecei sem saber absolutamente nada, apenas sentia fome e sabia de quem e onde poderia me saciar. Quando comecei, não conhecia ninguém, mas reconhecia apenas um cheiro, sentia-me seguro. 
Mau sabia correr, mas comecei a correr naturalmente. Não me importava se havia mais alguém, não havia competição, vaidade, maldade, apenas um mundo desconhecido e esquecido. 
Meu aperfeiçoamento era muito rápido. A mudança era absurdamente notável. Gostava de repetir as mesmas coisas, dezenas, centenas de vezes sem que elas me irritassem ou me machucassem. Não era apenas um mero treino, mas o prazer do descobrimento que me instigava, a graça da vida exuberante. 

Um casal me ensinava. O homem era mais forte, mas a mulher mais cuidadosa e paciente. Passava a maior parte do tempo com ela, mas ele era o que eu sempre quis ser. Prefiro os dois juntos.
Logo minha corrida era incansável e extremamente deliciosa. Sem preocupações eu corria sem saber se um dia teria que parar. Parar?
Quero correr como meu Pai. Quero ser igual a ele.

Mesmo com meu físico em desenvolvimento, em pleno crescimento, começaram a me privar de algumas coisas. Justificavam dizendo que era para eu correr melhor e continuar correndo bem. Não entendia muito, mas tive que obedecer.
Logo descobri como poderia correr escondido. Sem muita noção do perigo, fazia o que não deveria. Certas coisas serviram como aprendizado, outras apenas machucados. Mas nada que me parasse no momento. Desconhecia as consequências futuras. Parecia que nunca chegariam.

Minha corrida se tornou muito prazerosa. Corria com muita facilidade. Meu coração estava mais forte que meus músculos. Mas meus músculos nem sequer reclamavam no momento. Assim como eu, eles ignoravam as consequências. 

Passei muita gente, muitos lugares, muitas coisas. Não conseguia correr mais devagar. Aumentava minha velocidade com muita facilidade. Me sentia como um predestinado. Hora ou outra era arrebatado e me via em lugares onde nunca havia passado. Viajei pelos continentes da terra. Fui a Europa e vi muitos jovens corredores, todos muito velozes. Todos com desdém. Passei pelo continente africano e vi um terreno muito difícil para correr, pronto para ser conquistado. Não sabia se o queria, mas sei que outros o querem. Lá todos correm muito bem, mesmo sem saber a finalidade, onde chegarão. Objetivo eles têm. A meta é a justificativa: matar (a fome e a sede). Querem justiça e uma paternidade - liberdade. Passei pelo Novo Mundo. Vi jovens inteligentes e talentosos, esforçados, obstinados. Gostei deles, mas eles correm demais. Ainda tenho fôlego para alcançá-los. Quero correr com eles. Mas a Asia, ela me assusta, não gosto de correr reservado. Deles, a meta não é justificativa, matar (uns aos outros). Talvez esse desafio não seja meu. Preciso estudar mais e saber qual o tênis que devo usar. Fiquei sabendo que os que correm por lá são os mais preparados. América é meu terreno. Não conheço tudo, talvez bem pouco, porém mais que o restante. Aprendi a correr influenciado pelos daqui. Mas quero uma outra influência além daqui. Não a que os ensinou a correr, mas a que os fez para correr. 

Por esse lugares me vi correndo como que flutuando. Meus batimentos diminuíam diante do barulho das grandes multidões de jovens cheios de ritmo. Quero ser percebido por eles, porém a experiência me fez enxergar quão medíocre é a minha passada. Preciso melhorar a corrida, não a velocidade. Quero ser um com Ele(s). Quero correr com eles. 

Comecei a sentir alguns sinais dos meus exageros do passado, da minha ignorância e desobediência. Hoje preciso ser mais cauteloso, pois caso seja exagerado, dói. Ficaram algumas sequelas. Nada que Ele não possa resolver. Mesmo assim não quero parar de correr. Não completei a carreira. Minha corrida se tornou mais experiente. Sei dosar melhor minha passada, meu ritmo. Quando me canso demais, diminuo para oxigenar meu cérebro ao invés dos músculos. Logo relembro donde devo chegar. Começo a flutuar novamente. Nesse momento é que minhas pernas descansam sem parar de se movimentar. Minha corrida ganha ritmo e a graça de uma dança. A música destaca-se como uma profecia. Tudo nesta cena é harmonioso. Volto a enxergar o que meus olhos não podem ver como uma promessa do que ainda vai acontecer. 

Preciso correr. 


Tropical
P.S.: Estava correndo.


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