terça-feira, 25 de agosto de 2009

"O que vem a nossa mente quando pensamos sobre a palavra igreja é a coisa mais importante que molda o nosso  funcionamento como igreja." Dan Kimbal

No mês de julho, férias escolares, fui convidado para falar num congresso de jovens que aconteceu dentro da ONG - GVN (Geração Vida Nova), que fica dentro das favelas do Jardim Aeroporto. O tema do congresso foi Geração Emergente. Tinha como objetivo o despertar para a realidade da igreja moderna e sua relevância para as gerações emergentes e pós modernas. Antes de iniciar qualquer tipo de assunto, decidi começar com uma simples dinâmica de perguntas e respostas. Precisava saber qual era a realidade atual do conceito que as pessoas tinham a respeito de Jesus Cristo, sua Igreja e missão. Aproveitei minha própria didática para também responder as questões que apliquei na primeira dinâmica. Gostaria de compartilhar essas questões, minhas próprias respostas e confrontações. Também gostaria que antes de ler minhas respostas você pensasse por algum tempo a sua própria resposta. Depois disso, fizesse o exercício da auto confrontação.

As perguntas:



1- Como você imagina a aparência de Jesus, morador da Palestina há pouco mais de dois mil anos atrás?

R.: Imagino que fosse um palestino de aparência simples. Diferente dos homens poderosos ou dos líderes religiosos - fariseus, sacerdotes e escribas. Imagino que ele fosse, como diriam alguns, "gente como a gente."

Não o imagino como um homem cansado ou cabisbaixo, nem como austero arrogante querendo se impor pela postura. Porém a bíblia o descreve como "uma plantinha que brota e vai crescendo em terra seca. Ele não era bonito nem simpático, nem tinha nenhuma beleza que chamasse a nossa atenção ou que nos agradasse" [muitos defendem que essa descrição feita pelo profeta Isaías fosse da aparência de Jesus quando já estava sofrendo nas mãos de soldados romanos pouco antes da crucificação. Não posso concordar, pois acho que, na maioria das vezes, estão justificando suas vaidades e ambições. Insisto que voltem ao início do texto e leiam com atenção o a narrativa do profeta Isaías. Provavelmente a descrição da aparência de Jesus em seu sofrimento seja somente à partir do próximo versículo]: "Era como alguém que não queremos ver; nós nem mesmo olhávamos para ele e o desprezávamos." Isaías 53


Confrontação:

Então porque em nossas representações teatrais, pregações ou explicações a respeito de Jesus ainda o mostremos com a aparência de alguém bem diferente dessa realidade bíblica?

Sempre apresentamos um Jesus que se destaca das demais personagens - vestido de branco, com cabelos e barba bem feitas, voz pausada e comedida - diria que, quase um ser fantasmagórico - no entanto, por sua aparência, ninguém poderia identificá-lo como sendo algo a mais do que um simples carpinteiro. Diziam: "Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, e de José, e de Judas e de Simão? E não estão aqui conosco suas irmãs?

Para que os sacerdotes e levitas soubessem quem era o Messias, João, enquanto batizava às margens do Jordão, teve que identificá-lo como o Cordeiro de Deus. Pior, nem mesmo João saberia reconhecer o Messias senão pelo Espírito que repousava sobre ele. Judas teve que identificá-lo com um beijo para que os soldados romanos soubessem a quem deveriam prender. E, mesmo depois de sua ressurreição as mulheres o confundiram como um jardineiro qualquer. Com certeza o modelo de Jesus que nos foi formado, pela cultura ocidental e religiosa, nada tem a ver com o morador da antiga Palestina.



2 - Se Jesus fosse brasileiro e estivesse aqui hoje, em carne e osso, como você acha que seria a aparência dele?

R.: Menos vaidoso que eu. Diferente dos líderes políticos que conhecemos e muito menos parecido com o corpo que compõe o clero alto - isso existe, pode crer. Não seria reconhecido por suas roupas, pois não estaria preocupado com que grife se vestir. Não seria reconhecido pela aparência do nosso padrão de beleza. Imagino que não usaria terno, a menos que fosse para agradar um amigo ou em certa ocasião que fosse indispensável o uso. Muito talvez para cumprir formalidades ou protocolos - não acho que ele seria do contra pelo simples prazer de provocar os oponentes. Não acredito que Jesus fosse atraído pelas grandes cidades, centros financeiros ou possibilidade de bons negócios. Por isso acho que ele não estaria em São Paulo - muito menos Brasília. Longe do sul, para cima do sudeste, mais provavelmente norte e nordeste - onde está mesmo o centroeste?

Acho que estaria bem longe dessa babilônia que são os programas evangélicos de televisão ou rádios, apesar dele ser notícia em todos os meios de comunicação devido a sua fama inevitável - rumores do Messias. Acho que ele teria a cara de um brasileiro comum, que nem serve para ser modelo de revista de moda, pela falta de beleza excessiva; que também não serve para ser a arte em que o feio se torna belo, pela simplicidade de sua aparência. Talvez mais parecido com um índio do que com um descendente europeu - brasileiro de brasileiros com cara de pobre.


Confrontação:

Então porque que nós ainda queremos tanto ser o esteriótipo de pastores ou crentes bem sucedidos na aparência e também o padrão da moderna prosperidade? Porque corremos tanto atrás do dinheiro como se isso resolvesse nossos problemas ou como se ainda fosse um sinal de aprovação da parte de Deus por nossa boa conduta?



3 - Qual seria o seu ideal de igreja?

R.: O contrário da religião que é o veneno fatal, que mata o indivíduo pela distância que o coloca de seu criador. A igreja sem placa e sem endereço - não quero dizer algo contra as denominações em si, mas contra a denominacionalização da fé, da obra de Cristo ou povo escolhido. Como que "só aqui Deus opera milagres".

Imagino a igreja com irmãos e irmãs do meu prédio compartilhando a fé e aprendendo a Palavra de Deus, com as suas e a minha casa disponível, aberta, para celebrarmos a comunhão do Corpo de Cristo. Nas casas de meus amigos, junto com os amigos de meus amigos, discutindo a necessidade e fazendo a vaquinha para pagar uma conta atrasada do necessitado da vez que poderia ser eu ou você. Na porta dos hospitais, presídios e asilos, servindo, evangelizando e consolando. No café do shopping ou de baixo da ponte, chorando ou rindo, orando ou cantando, contando com a ajuda de mais outro irmão para suprir e complementar o serviço. De dentro das empresas e das universidades para a periferia e comunidades carentes. Uma única igreja - a igreja que é o Corpo de Cristo, a Noiva, a enviada, ou seja: a missão em si. O culto formal seria apenas um resultado da nossa vida diária.


Confrontação:

Então porque eu luto tanto para defender uma placa? Porque, com ar de disputa, continuo perguntando às pessoas a qual igreja ela pertence? Biblicamente falando, quantas igrejas existem?



4 - Qual é a realidade da igreja moderna? Em sua opinião.

R.: Mais comprometida com seus ritos, símbolos e dogmas do que com a missão de Cristo. Mais comprometida com a sua placa, seus preceitos, suas festas e eventos do que com a vizinhança. Comprometida mais com suas regras do que com a graça de nosso Senhor. Mais comprometida com os números, com a performance e resultados, com a expansão e conquistas, com seus orçamentos e desafios de fé do que com o exercício da piedade. Deixamos de lado o sentido da palavra para sermos a corrupção do termo.


Confrontação:

O que tenho feito para mudar isso?



5 - Qual dessas duas igrejas você acha que Jesus frequentaria? Porquê?

R.: Para responder a esta pergunta, é lógico que tenho que ser o mínimo criativo. Pois, em primeiro lugar, a igreja só foi inaugurada após sua ressurreição e, nossa realidade cultural e histórica também é totalmente diferente. Outra coisa, Jesus é o cabeça da igreja - uma realidade e dimensão muito diferente da nossa - todos somos ovelhas diante dele. Mas então desconsiderarei os fatos, desconsiderarei que essa pergunta seja apenas uma pegadinha e responderei imaginando que o freqüentar de Jesus em algum lugar em específico não seja o lugar X ou Y, mas um lugar onde, independente da qualidade e aparência das pessoas, fosse de sinceridade, de fome e desejo por Ele. Também sou tentado a pensar que ele não estaria em nenhum lugar parecido com os que eu geralmente gosto de visitar, mas onde poucos gostariam de ir; onde os necessitados estão - de toda sorte.


Confrontação:

Então porque ainda eu não entendi que sou a Igreja de Jesus Cristo junto com meus irmãos na fé, independente de onde nos juntamos? Porque ainda não entendi que igreja em termos bíblicos nunca foi um lugar onde se vai? Seria a igreja um prédio cheio de gente ou seria gente cheia de Deus?



6 - Como você imagina que seria a igreja do padrão bíblico? Faça uma descrição sucinta.

R.: Uma igreja que ande no mesmo sentimento que Cristo andou - olhando a multidão e se compadecendo deles. Uma igreja que zele pelos princípios, pela moral e ética para fazer a diferença em meio ao caos que estamos vivendo. Uma igreja responsável na missão de se estabelecer o reino do Céu, através da proclamação, do ensino e da assistência aos necessitados. Uma igreja que fuja da fama e ostentação pecaminosa. Uma igreja que aprenda o que significa temor a Deus - esse é um termo difícil de se compreender - que saiba o que quer dizer "santificado seja o Teu nome" e o que significa "Pai nosso". Uma igreja que se junta para orar uns pelos outros, pelos doentes, para cantar e ler, chorar, comer e beber, compartilhar e dividir o que lhes foi dado de graça. Uma igreja que tenha sabor, que seja uma cidade edificada no alto.


Confrontação:

Porque não aplico todos esses conceitos, princípios e sentimento para minha própria vida, antes de cobrar das grandes massas? Como disse Gandhi: "Você precisa ser a mudança que quer ver..."



7 - Qual seria o seu ideal de vida?

R.: Uma vida sem as vaidades que me tiram do foco, sabendo lidar com toda essa influência venenosa de uma cultura religiosa, consumista e passageira. Uma vida simples, contentando-me com a provisão de cada dia sem abrir mão da prudência e, com o foco no reino dos Céus. Uma vida com menos preocupação pessoal, mas praticando a piedade. Quero dizer, com o foco na eternidade, não em apenas 80 anos - isto é, se tudo der certo. Uma vida abnegada para ser eficiente e útil na missão de apresentar as boas novas de Cristo, através da mensagem e da fé e com as obras que a validam.


Confrontação:

O que está me faltando para alcançar tal padrão?



8 - Qual é a sua realidade de vida?

R.: Ainda luto contra minhas vaidades e me esforço para enxergar o invisível pelos olhos da fé. Apesar de saber qual a recompensa que vale a pena, corro muito pela que pouco vale. Tenho a esperança em Cristo e na ação do Espírito Santo em minha vida para ser transformado dia após dia em minha mente e caráter. Creio que estou como um corredor tentando atravessar a linha de chegada, considerando as dificuldades de minha própria natureza, mas esperando que esta se torne menos evidente que a natureza de Cristo. Estou num processo necessário. Já aprendi que a vida não se torna mais fácil à medida que recebemos o conhecimento e nos aproximamos da verdade, pode ser mais leve, mas não mais fácil. Parafraseando Larry Crabb, quando tinha 20 anos, não era mais fácil do que quando tinha 10 anos; quando 30, não era mais fácil que 20 e hoje, minha vida não é mais fácil que ontem. Mas vejo tudo isso como um bom conflito - saudável. Não me desanimo quanto a realidade.



"Jesus e seus ensinos não parecerão tão estranhos ou repulsivos aos não cristãos como, por certo, parecerá a subcultura cristã que criamos. As gerações emergentes estão, na verdade, bastante interessadas em Jesus, mas muitas vezes os cristãos atrapalham." Dan Kimball



Acho que é somente isso.

Espero que esses exercícios de raciocínio o tenha ajudado para alinhar algumas idéias, pois em tal congresso nos foi muito boa a dinâmica - algumas coisas mudaram depois disso.



Tropical



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ide! ... Faça alguma coisa, pelo menos.


Já está claro para mim o que é viver uma grande utopia missionária. Quero dizer com isso que infelizmente sonhamos com a missão perfeita: reconhecimento do nosso chamado pela liderança de uma igreja local, envio - de preferência num país da Europa, mas caso seja em países mais pobres, com no máximo um mês de permanência - sustento e ótimas condições para se permanecer em campo. Tudo isso para que depois de nossa chegada, haja um grande espaço para contarmos nossas histórias em púlpitos. O que há de errado nessas coisas?


Me parece que a palavra "missão" está, ao mesmo tempo, bem difundida e tão mau compreendida. Fizemos dela um grande ideal que também se transforma no constrangimento de muitos (menos mau, nesse último caso). Por este motivo é que não é difícil ouvirmos pregadores que gostam de amenizar o problema com o discurso de que você também poderá fazer missões orando ou enviando, nesse caso para te pedir um pouco de dinheiro, já que a algumas igrejas locais nunca o tem, nem mesmo um fundo para isso. Óbvio que neste caso só existe sentido porque o sentido original da missão foi deturpado. Nem sei da onde tiraram que orar é fazer missão. Poderíamos dizer então que os maiores missionários são os do grupo da intercessão, certo? Então, vamos chamá-los de missionários.


Missões viraram o sonho de consumo de muitos jovens e a frustração de alguns velhos. Pois ela se tornou praticamente impossível pelo engano das nossas próprias vaidades. Sempre que pensamos em missões, pensamos de maneira errada: Em um ótimo planejamento - talvez precise, na maioria das vezes não. Nos consentimentos de pessoas - seria um pouco de burrice da nossa parte esperar que pessoas inertes nos apoiassem para algo que nunca fizeram. Na solidariedade de amigos - gostaríamos que viessem conosco. Em dinheiro - já que a idéia está sempre em algum lugar longe de casa e que precisamos ir de avião. Em resolver primeiro nossos problemas pessoais - em casa, no trabalho, na igreja, na vida. Em condições que nos isentem de trabalho - pois ai sobrará tempo e não teremos mais preocupações - quem sabe na aposentadoria ou na loteria. Em um anjo ou o próprio Deus se tornando visível aos nossos olhos como a prova de que a nossa hora chegou - ainda assim eu duvido que daria certo. Enfim, são inúmeras as situações de enganos, convenientes.


Durante anos eu preguei esses mesmos preceitos porque acreditei dessa maneira. Porém quanto mais meu discurso teórico se tornava perfeito, mais me sentia um impostor diante de Deus e do público que me ouvia falar sobre o assunto. Incontáveis são as vezes em que falei a famosa frase: "Precisamos sair de dentro dessas quatro paredes, Deus nos deu as nações por herança..." Biblicamente correto, praticamente errado. Erroneamente e em vão busquei chamar a atenção para o meu discurso, pois quem sabe assim poderiam se compadecer e com apoio me enviariam. Sempre provei, com certa amargura, a maior cobrança da parte do Pai pelo fato de estar na função de quem ensina. Pedia ao público que fizessem algo sem mesmo nunca ter feito. Os desafiava a saírem de sua zona de conforto sem nunca ter saído, senão pela consciência já desconfortável. Para deixar de me sentir um impostor e não mais trair minha própria consciência, tive que abrir mão do discurso e começar a confrontar minha própria fé pela palavra de Deus. Coloquei na mesa, como se fossem cartas, todos os preceitos que me foram ensinados. Um a um (ainda não terminei), questionei, revisei, confrontei, desprogramei e, contando com a graça de nosso Deus, manifesta em Jesus Cristo e confirmada pelo Espírito Santo em nós, tenho reaprendido a fé.


Ouvi, nessa última semana, a frase: "Missão é a obra mais barata que existe". Não parece tão óbvio assim, mas é a realidade. Para se anunciar as Boas Novas do reino do Céu, basta-nos abrir nossas bocas a quem quer que seja, em qualquer lugar, quer seja oportuno ou não. Entendi que o discurso "temos que sair das quatro paredes e ganhar as nações", com todos os preceitos equivocados, era bem ridículo, pois a missão estava mais acessível do que parecia. "Descobri" que no quarteirão em que está a igreja local existem outras casas e famílias que nunca ouviram falar do amor de Deus em Jesus Cristo. A estratégia agora seria apenas ir até estas pessoas. Onde moramos, nossos vizinhos também precisam de ouvir o evangelho de Cristo. "Descobri" que na minha cidade existem hospitais, presídios, favelas, moradores de ruas, escolas, universidades, ONGs, etc., de acesso barato, talvez sem nenhum custo. É bem mais fácil do que parecia. Você só precisa sair do discurso e planejamentos de eventos da sua igreja local para a prática em sua vizinhança. A Igreja é missional - é a missão em si. Ela não pode ser departamental. Ela também não é e nem nunca foi, em termos bíblicos, um lugar onde se vai. A Igreja é que vai até as pessoas. Onde estivermos, a Igreja estará e, consequentemente a missão será cumprida se tão simplesmente abrirmos a boca e estendermos o braço. Exercite a piedade, ajude o que precisa ser ajudado, ore pelos doentes, expulse os demônios, dê sem esperar nada em troca, convide para suas festas os que não podem retribuir, tenha menos amizades de conveniências, faça menos network ou auto promoção, fuja da riqueza, fuja da fama, busque uma vida simples, corra do reconhecimento humano e pense menos em você mesmo.


Sei que essas coisas são difíceis.

Eu dei meu primeiro passo, mas faltam alguns outros.

O fato de conhecer mais do que já sabia, também não tornou minha vida mais fácil, mas me colocou numa condição de decisão - continuar traindo minha consciência e consequentemente a Deus, sendo um grande impostor diante de todos ou, sair para viver com um consciência mais limpa, ainda que falte vários outros passos a serem dados.



Quero deixar claro que não estou avaliando o sentimento de cada indivíduo, mas o meu próprio - o de querer fazer de maneira certa - mas confronto o entendimento, a teoria e a prática sobre tal assunto de todas as pessoas. Gosto do que Deus diz, que feliz é o homem que não se condena naquilo que faz [em sua própria consciência]. Para quem foi entregue mais, este será mais cobrado.



Valeu,


Tropical















sexta-feira, 14 de agosto de 2009

AIRO


É uma palavra grega usada em alguns trechos da bíblia e que é traduzida como tomar ou levantar, tirar, levar, tirar do meio, pôr de lado ou cortar de acordo com cada contexto. Mas para mim, o verbo com o qual mais me identifico é "tomar" - no sentido de "levantar".


UM SONHO

Com base na palavra de Jesus que diz a respeito da grande seara (Mt 9. 35-38), a proposta do AIRO é contribuir para que o jovem cresça - seja levantado e confirmado por Deus - dentro do seu chamado ministerial e, de acordo com o seu talento, seja enviado para as missões - urbanas (escolas, bairros, clubes, instituições, casas, ONGs, etc.), global e transcultural. É também a proposta do AIRO contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos jovens através da aplicação de princípios cristãos e projetos que visam a transformação do indivíduo e do meio em que vivem, utilizando esportes, artes, serviços e saúde como ferramentas de integração e bem estar social. AIRO é a integração de dons e talentos para servir a Deus e consequêntemente todas as pessoas.


EXEMPLOS

É natural que uma empresa tenha seus departamentos. Dentro deles, equipes de profissionais habilitados para desenvolver e executar projetos. Gostaria de citar como exemplo uma agência de comunicação e propaganda onde, numa estrutura comum, os departamentos existentes são: criação, atendimento, mídia, rtv, planejamento, produção, revisão, finanças, cpd, telefonia, recepção e compras. Tanto para ter bons resultados como para crescer, todos os departamentos devem trabalhar para suprir as necessidades de um todo. Somar é a palavra certa. Provavelmente se algum departamento faltar, outro terá que fazer o serviço. Imagine que a equipe de criação tenha que atender o telefone, fazer o atendimento ao cliente, cotar preços de mídia planejar e produzir. Creio que não fariam direito o que sabem fazer - criar. Mas para que a criação se desenvolva com qualidade, formou-se uma dinâmica de trabalho com pessoas de diferentes talentos - para atender, negociar preços, planejar, produzir etc.


Creio que a dinâmica de trabalho - voluntário ou contratado - como igreja, não possa ser diferente disso. Mas ainda existem muitos talentos que estão escondidos ou foram deturpados. Algumas pessoas ainda se perguntam sobre o que poderiam fazer para servir de maneira adequada. Dando a entender com isso que ainda ignoram seus talentos ou desconhecem sua vocação. Todos temos talentos - uns mais e outros menos (MT25.15), todos já fomos vocacionados (chamados para algo específico). Lembro de amigos de minha adolescência que se destacavam em qualquer tipo de atividade. No meu caso, não tinha tantos talentos. Mas aprendi que deveria me desenvolver no que sabia fazer e não lutar por fazer algo que jamais seria alguma coisa.

É muito comum que, quando descobrimos nossa capacidade de se fazer algo com certa facilidade, tentemos desenvolver projetos ou realizar sonhos sem a ajuda ou reconhecimento de outras pessoas de diferentes chamados - sozinhos. Infelizmente o modelo da igreja moderna fez com que ela se dividisse em denominações, as quais se esforçam pela imortalidade de suas placas em detrimento da essência do evangelho de Cristo e da diversidade de dons. A ironia disso é que existem outros pequenos reinos dentro dessas mesmas igrejas locais (MT12.25). Não podemos ser donos daquilo que não é nosso (JO3.27). Somos servos (MT25.14), despenseiros (ICO4.1-2; IPE4.10) e embaixadores de um reino (EF6.20).


Poderemos entender melhor essa diversidade e o resultado que isso poderá ter se imaginarmos uma equipe de dança se preparando para um novo musical. Para que tenham êxito é necessário que, antes de mais nada, tenham uma grande proposta - atual e pós moderna [essa é a minha opinião]. Porém ainda não será o suficiente. Eles precisarão de uma equipe que vá além de bons dançarinos, quero dizer, que nem sejam dançarinos. Precisarão de um grande diretor que irá fazer da história escrita uma grande representação capaz de levar entendimento ao público e transcendência. Precisarão de bons produtores de cenário, figurino, música, iluminação, imagem, efeitos especiais, etc. Cabeleireiros, maquiadores e auxiliares. Ainda precisarão de uma boa equipe de marketing para desenvolver o projeto de divulgação com acessoria de imprensa, veículos especializados e peças de campanha publicitária. E sem nos esquecermos dos esquecidos, temos ainda o pessoal de serviços como, instaladores, pintores, faxineiros, costureiras, passadeiras, porteiros, segurança, etc. Enfim, várias pessoas de diferentes dons trabalhando para um objetivo comum. Quando que a única preocupação dos dançarinos, seria a de ensaiar exaustivamente.



UMA VIDA

Isto já é uma realidade em muitos meios. Por que não na igreja? Nós poderemos isso se conseguirmos entender, em primeiro lugar, que nosso chamado é um todo integrado. Temos que parar de profanar nossos dons com a divisão de nossa vida, separando-a em vida profissional, familiar, espiritual, etc. Pois Deus nos vê como uma única pessoa. Ainda que os cenários sejam diversos, temos que entender que somos apenas um diante de Deus e que daremos conta dessa única vida que temos. Precisamos parar de dizer que, hora trabalhamos secularmente e, outra hora exercemos nosso ministério, querendo dizer com isso que a vida se divide entre igreja e vida ordinária. Nós somos Igreja. Igreja nunca, em termos bíblicos, foi um lugar onde se vai. Ministério e trabalho é a mesma coisa, mas no que diz respeito a vida do reino do Céu, em todos os lugares, fazendo o que for, a qualquer hora e em tempo ou fora de tempo, apenas com ferramentas diferentes, temos uma única finalidade: a vida de Deus em nós e através de nós.



DUAS LEIS

Precisamos quebrar os paradígmas do trabalho voluntário. Aprendi que um homem de Deus deve viver considerando duas leis: da graça e da causa e efeito.

É comum enxergar dois distintos grupos de pessoas. O primeiro grupo diz, de alguma maneira, que não seria certo trabalhar exaustivamente para Deus como é comum fazer em nossos trabalhos seculares (isso não passa de preceito humano e moderno). Pois a graça nos basta e apenas uma vida ganha para Deus representa festa nos céus. Ainda fazem mal uso de versículos da Bíblia para justificarem a falta de maior empenho no anúncio das Boas Novas. Sei que é bem possível contarmos com a graça de maneira equivocada. Como se nosso esforço ou capacidade fosse totalmente anulado pela graça, sendo que na verdade, a graça também está nisso.

O segundo grupo diz que se não fizermos os trabalhos como se fazem dentro de intituições seculares (aqui continua o preceito humano que profana o que é santo e santifica o que é profano), usando somente pessoas habilitadas - músicos profissionais, artistas de verdade, roteristas credenciados etc. - não consiguiremos nunca chegar a qualidade desejada - o tal padrão de excelência já tão mau compreendido.

Será que a resposta a esse dilema não estaria na compreensão dessas duas leis - princípios: graça e causa e efeito? A Bíblia diz que devemos fazer conforme as nossas forças tudo o que vier às nossas mãos para fazer, pois as obras são apenas para este tempo (EC9.10). A Bíblia também nos ensina que tudo o que plantarmos, iremos colher de acordo com a espécie da semente (GL6.7). Se você quiser que sua equipe de dança apresente um grande número, ou que sua equipe de teatro represente tão bem ao ponto de se confundir com a realidade, ou que o coral tenha as melhores vozes, e ainda os músicos estejam totalmente afinados... todos devem se dedicar ao máximo. Talvez se cansem de tanto ensaiar, mas terão que se esforçar um pouco mais. Isso que chamamos de lei da causa e efeito.

Agora sim. Chegamos ao limite de nossas forças. Estamos exaustos e não poderemos ir mais além. Esse é o grande momento. O momento em que Deus acrescenta a sua graça para colhermos mais do que plantamos. Para irmos além de onde conseguiríamos chegar. Ganhar mais do que mereceríamos. Quero dizer que chegamos num extremo e Deus nos levará além dos nossos limites. Então, não justificaremos com a graça nossa falta de maior empenho. Deus virá em poder sobre cada pessoa ou equipe, pois encontrará multiplicado o talento dado a cada pessoa. O mundo poderá ser testemunha da vida de Deus em nós - pela graça e pelo princípio. Então muitos serão alcançados - uma multidão.


Temos que nos empenhar para cumprir nosso chamado, utilizando nossos dons combinados a uma diversidade de muitos outros talentos/pessoas, trabalhando bastante e contando sempre com a graça acima de nossos esforços e capacidade, pois a graça nunca deixará de ser algo que não merecemos.



O PROPÓSITO

Numa empresa comum ou agência de propaganda a meta seria cumprir os prazos. O objetivo, satisfazer os clientes e por final o propósito seria ganhar dinheiro. Se todo esquema não virar dinheiro, a empresa deverá fechar. Ouvi uma frase que justifica o propósito comercial: "O que fica é o dinheiro."

Numa igreja local não poderia ser diferente. Deveríamos ter algumas metas definidas. Objetivos que justificassem as metas e o propósito sempre será a vida de Deus. "O que fica é a vida". Primeiramente em nós e depois através de nós (RM8.18-19). Nada valerá, nenhuma estratégia será justificável se não terminarmos em vidas. Posso ter um monte de departamentos, equipes super organizadas, trabalhos exaustivos e organização máxima, se o resultado disso tudo não estiver relacionado a vidas alcançadas para Deus, não valerão os esforços.


SINTEZE

AIRO É VIDA GERANDO VIDA.



Devemos estar cientes:
1 - do objetivo
2 - do propósito
3 - que mensagem queremos passar para as pessoas da comunidade (como equipe ou individual)?
4 - o que gostaríamos de despertar nas pessoas da comunidade (como equipe ou individual)?




Tropical

P.S.: Escrevi esse texto há 4 anos atrás. Foi uma tentativa de explicar às pessoas de minha antiga igreja local qual era a idéia do AIRO. Hoje em dia, quando me perguntam qual o nome do meu trabalho, é esse mesmo nome que uso e pretendo continuar usando-o - AIRO. Mas não o divulgo e nem faço campanhas para marcá-lo, pois isso iria contra o que tenho escrito e contra mim mesmo. Apenas publiquei o texto para registra-lo e porque acho que pode acrescentar um pouco mais.



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ministério da futilidade

Funciona mais ou menos assim:

Uma pessoa que se converte – pela graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo – logo se envolve com as pessoas e rotina de sua igreja local. De cara esse envolvimento é benéfico. Pois, ao mesmo tempo em que tira a pessoa de uma má rotina de conversas e costumes, o coloca dentro de um novo grupo acostumado a trocar assuntos relacionados a cultura evangélica. Parece muito bom.

Pouco tempo depois a rotina dessa pessoa gira em torno desse grande pacote evangélico, ao ponto de muitas pessoas desejarem viver "só para o ministério" - querendo dizer com isso que o trabalho ordinário é quase que uma profanação da própria vida. Porém, esse novo estilo de vida trás no pacote: cultos semanais, cultos especiais, acampamentos e retiros, shows de evangelismos e congressos, reuniões de departamentos, reuniões de planejamentos, visitas a outras igrejas, arrumação, decoração, personalização, compras, vendas, etc. Enfim, tudo o que parece ser necessário para fazer da igreja local um grande ambiente agradável.

Uma pausa.

Como já escrevi em outras oportunidades, nasci e cresci dentro do ambiente igreja. Tive a oportunidade de presenciar algumas mudanças de costumes e modelos, o nascimento de novas denominações e o surgimento de alguns estrelas. Devido a todas essas eventualidades não tive como escapar da confrontação de minha fé prática pela essência do evangelho de Cristo. Inevitavelmente também passei a questionar o modelo e prática de muitas igrejas modernas.


Antes também é necessário dizer que fiz parte de todo esse cenário e, que também me esforço para não me tornar um refém desse sistema. É necessário dizer que creio que existem muitas pessoas bem intencionadas, pois com muita sinceridade se empenham para fazerem as coisas de uma maneira correta. Então a questão não está em torno da sinceridade das pessoas, mas dos preceitos e dos modernos modelos de igreja e ministérios e o resultado disso tudo - se não tomarmos devido cuidado. Tenho que dizer que somente as boas intenções não resultam em glória - digo a de Deus.


Continuando.

Dentro dessa nova rotina e pacote, vem um tipo de evangelho diferente do que os apóstolos haviam anunciado. O evangelho do comércio. Aprende-se o preceito dízimo e as muitas maneiras para justificar-se dos abusos de pedir dinheiro através de inúmeras campanhas e eventos especiais, porém sem nada devolver para os necessitados de sua própria comunidade. Os eventos são cobrados com o argumento de cobrir custos, as cantinas e cafés funcionam a todo vapor e as livrarias vendem seus livros, CDs, DVDs, camisetas e outras coisinhas a mais, com o objetivo de arrecadar mais recursos. Até polo comercial já existe, a famosa rua Conde de Sarzedas, cheia de produtos evangélicos apoiados por dezenas de cartazes de celebridades gospels - mas se quise-los em sua igreja, terá que pagar o cachê.


Por exemplo, enquanto estou escrevendo este texto já recebi em minha caixa de e-mails dois convites para participar de cultos/eventos especiais. Obviamente pagos. Um deles diz mais ou menos assim:


"A todos, boa tarde!

Estamos para fechar uma noite de ministração com Fulano de Tal que estará excepcionalmente uma noite em São Paulo e gostaria de saber quantos de vocês, meus amigos, participariam deste evento. Ouço dizer que haveria uma enormidade de gente para este evento. Por isso gostaria de ter mais ou menos a dimensão do numero de pessoas. Provavelmente será na quarta-feira dia XX de novembro com o custo estimado de R$ 30,00 por pessoa para cobrirmos os custos de sua vinda [e assim por diante]."


Minha resposta:

"... na real, esse é um cara que gostaria de ouvi-lo pessoalmente, pela boa música que ele faz e que também acredito ser pelo sentido certo das coisas. Mas velho, cada vez mais me proponho ir contra esse mercado evangélico. Parece o nosso governo, sempre tomando do cidadão comum e quase nunca devolvendo em benefícios. A igreja local deveria, ao menos, devolver um pouco para sua comunidade - dar de graça. Mas se houvesse uma prestação de contas ou um objetivo missionário, poderia pagar e ir. Agora, pense bem, pagar para ser ministrado, para adorar, para... Eu penso que cada vez mais a essência do evangelho de Cristo tem sido esquecida - anunciar as Boas Novas aos perdidos, de graça.

Que ele e a igreja local tenham seus custos, mas é que sempre só me apresentam custos, nada mais.

Nada pessoal. Apenas liberdade de expressão como todos os que a usam, mas a usam apenas para cobrar."

Ainda pergunto, qual a finalidade de tantos eventos e produtos "evangélicos"?

Será que nosso modelo e estrutura se tornaram tão caros ao ponto de se tornarem ineficientes para a obra de Cristo? Por acaso alguém entende qual é a missão da Igreja? Sabemos o que significa ser missional, não departamental? Poderíamos nos tornar mercenários ao invés de missionários? É possível?


Ainda hoje, logo pela manhã, eu estava assistindo ao jornal e vi o ressurgimento do caso "corrupção de Edir Macedo, Igreja Universal e Rede Record" que ∆já acumulou em nesses últimos anos algo em torno de 8 bilhões de reais. Impressionante! Dentre muitas acusações, uma questão/acusação é a de que eles não usam o dinheiro, arrecadado dos fiéis, para aplicar em obras sociais e assistenciais, mas para enriquecer de maneira ilícita. Existe uma condição imposta pela lei que isenta igrejas de impostos para que assim estas possam usar os recursos na ajuda aos necessitados através de trabalhos sociais. Infelizmente, mau sabem eles que a grande maioria das nossas igrejas não faz nenhum trabalho social ou de ajuda aos necessitados na dimensão e proporção em que se arrecada dinheiro. Não sabem eles que muitas de nossas igrejas nem ao menos prestam contas para seus membros, que em minha opinião já é grande falta de respeito aos que entregam suas ofertas. Para a nossa vergonha ainda têm alguns que se justificam dizendo que os necessitados - órfãos, viúvas, presos, doentes e pobres - são somente na dimensão espiritual, não humana ou material.


Deus nos diz que o importante é o final e não o início das coisas. Ou seja, começar bem nessa nova vida com Deus, em Jesus Cristo, é bom; mas a questão é o que temos nos tornado depois, dia após dia dentro de nossas igrejas locais. O que temos aprendido é sobre a missão da igreja - anunciar as Boas Novas aos pobres e necessitados, de graça - ou, sobre como fazer eventos? Temos aprendido a ter piedade ou a manter prédios a todo custo, ainda que seja em detrimento de outras vidas? Será que deixamos de lado o papel missionário para assumirmos o papel de mercenários?


Temos que tomar o devido cuidado para que não nos tornemos fúteis pelas estratégias que adotamos. Ser fútil é o mesmo que ser vazio da vida verdadeira que está em Cristo e em seu verdadeiro sentimento. Em minha opinião, são muitos os que se tornaram sem nenhum conteúdo, pois fizeram da piedade uma grande fonte de lucro. Temos que tomar cuidado, pois essa prática de comercialização da fé poderá ser bem disfarçada e, quando menos percebermos, já estaremos vendidos a isso tudo. Tomem cuidado ao planejarem em suas igrejas locais. Percebam, com muita sinceridade e honestidade qual a finalidade de tais eventos. Acima de tudo saiba também que plano missionário, ajuda aos pobres, vida simples, evangelização, piedade, etc. diz respeito ao nosso papel pessoal e não o de uma igreja local. Pois isso só terá sentido como evento de uma igreja local, quando primeiro tiver para nós, na prática.


Tropical










segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tudo ou nada?

Bom meu amigo Tusa me desafiou a escrever um e-mail com ênfase nessas duas palavras: tudo e nada. Ele também me deu a referência desses dois versículos:

"Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece." FL4.13

"O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará." SL23.1




Se tem uma coisa em que nós crentes somos peritos, é o de transformar o sentido original de um texto bíblico para se adequar aos nossos interesses e, assim suprir nossos anseios. Acho que nada tem de contextualização, mas de corrupção. Lógico que não sou nenhum mestre em hermenêutica, mas sempre me preocupo com o sentido que o autor, inspirado por Deus, quis dar ao texto original - dentro de seu contexto histórico, cultural, espiritual e profético. Também me preocupo com minhas reais intenções ao falar desses versículos que já se tornaram um grande refrão na igreja moderna. Não acho nada fácil. Só é possível com muita graça e humildade para deixar de lado a vaidade que nos acedia em dizer: "Deus me revelou uma coisa..." - para justificar os nossos achismos, atitudes, escolhas e o controle de pessoas.


Hoje em dia o "tudo posso naquele que me fortalece", essa frase demasiadamente ousada, se tornou uma auto justificativa para se desejar sempre mais e mais. Será que realmente temos poder para realizar qualquer coisa por meio de Cristo? Será que a frase "tudo posso" de Paulo se refere a sua própria capacidade aliada ao poder de Cristo ou está somente associada a força de Cristo em nós? Pois na moderna tradução NTLH (SBB), diz "com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação".


Será que o "tudo posso" de Paulo tem o mesmo sentido do "tudo posso" que temos falado e ouvido das pessoas? Pois me parece que a ênfase de Paulo, dentro do contexto, estava em necessidades pessoais - físicas - pois usa termos como pobreza, fartura e fome, abundância e escassez, dar e receber, e necessidades. Disse que Cristo havia lhe dado forças para enfrentar essas situações. Mas de maneira nenhuma ela estava falando no contexto de realizações/conquistas como alguns que pegam o versículo isolado para dizer coisas do tipo: "Posso ser um grande diretor de empresa, posso me tornar rico da noite para o dia, posso ser líder da maior igreja no Brasil, posso me tornar um grande profeta reconhecido, posso ganhar um grande prêmio, posso ter um ótimo carro importado, posso viajar para os melhores países do mundo, posso sair da condição de empregado para me tornar chefe, posso gastar o que quiser, etc. Diferente disso, Paulo estava dizendo que apesar das necessidades pessoais serem grandes e, às vezes, sem condições, em Cristo ele teria tudo o que precisava para enfrentá-las. Até mesmo na fome ele se sentia suprido por Cristo. Impressionante!


O saudoso Tio Cassio, pastor fundador da Cristo Salva, dizia: "Na gangorra com Cristo" - quando se referia a tal texto. Hora estaria no alto, hora embaixo, as com cristo sempre.


Se continuarmos a aplicar o versículo de forma errada, isolada de seu contexto, para o campo das realizações e conquistas, então teremos um problema: frustração. Muitos nesse erro acabaram duvidando das promessas de Deus por considerarem realizações pessoais como o propósito divino.


Mas para não ser tão duro, mesmo que seja num sentido diferente ao que Paulo quis dizer, do tipo realizações, melhor seria um entendimento do tipo: Tudo posso naquele que me fortalece, desde que seja da vontade dele, dentro dos limites que Ele estabeleceu e permitiu e que não fira seus princípios.


"Uma antiga preferência é Filipenses 4.13: "... tudo posso naquele que me fortalece". O "tudo" não pode ser completamente ilimitado (exemplo: saltar sobre a lua, resolver "de cabeça" complexas equações matemáticas ou transformar areia em ouro); portanto, a passagem geralmente é exposta como um texto que promete aos crentes a força de Cristo em tudo o que eles têm a fazer ou em tudo o que Deus lhes ordena que façam. Sem dúvida, este é um conceito bíblico; contudo, no que se refere a esse versículo, dá-se pouca atenção ao contexto. O "tudo" aqui consiste em viver alegre em meio a fartura ou fome, em abundância ou escassez (Fp 4.10-12). Seja qual for sua situação, Paulo pode lutar com alegria por meio de Cristo, que o fortalece." - D.A. Carson “Os Perigos da Interpretação Bíblica” (antiga “Exegese e suas falácias”).




Vamos ao segundo versículo.

Algumas pessoas defendem a idéia de que a Bíblia foi escrita numa linguagem pura e simples de entender e, por isso é que devemos sempre nos perguntar se é realmente necessário interpretar a Bíblia. Eles dizem “A Bíblia diz o que significa e significa o que diz.”

Porém, evitar isso só seria possível se alguém apenas lesse alguma passagem sem comentários. Mesmo assim, dependendo da ênfase que dermos ao ler um texto, o público poderá ser influenciado de maneiras diferentes. Exemplo:

- O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

- O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

- O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.


Não vejo nenhum problema nas ênfases dadas, a não ser que apenas a última delas (nada) tem sido ressaltada e distorcida. Como se nenhum crente da terra pudesse passar por necessidades, nunca. Mais uma vez acho que as pessoas quando pensam nisso, apenas relacionam "nada" com "tudo" o que diz respeito as coisas, bens e conquistas - infelizmente o mundo nos ensinou a deixar de lado a suficiência de Cristo. Prefiro entender que independente das dificuldades, basta-me o "meu pastor" estar comigo.



vlw


Tropical


Fonte de pesquisa: Hermenêutica